|
ENTREVISTA EXCLUSIVA/LivrariadoCrime
Bia Nunes de Sousa / novembro de 2007/ São Paulo
Edson Rossatto é escritor, editor de livros, roteirista de HQ e, acima de tudo, um descobridor. Dono da Andross Editora, dá oportunidade para novos escritores, organizando antologias de contos, crônicas, poemas e microcontos. No último livro que editou, Noctâmbulos – Contos de terror, Edson assinou o pseudônimo César Mancini, personagem de uma graphic novel em produção, a ser lançada no início de 2009. Agitado e falante, Edson conversou com a LivrariadoCrime sobre sua experiência e seus projetos.
LC: Edson, vamos começar pela sua carreira de escritor. Quantos livros você já publicou?
ER: Como autor, publiquei dois: Mansão Klaus e outras histórias, contos, e Curta-metragem, microcontos. Sempre gostei de contos, acho que é uma forma literária muito interessante e que foi marginalizada por algum tempo. O conto é muito versátil, demanda um poder de síntese muito grande. Citando Thomas Jefferson, “o maior de todos os talentos é aquele de não dizer duas palavras quando uma basta.”
LC: Você considera Mansão Klaus um romance urbano? A pergunta nos ocorre porque a mansão lembra as casas de campo descritas em romances ingleses mas, ao mesmo tempo, há descrição de ruas e lugares de São Paulo.
ER: Sempre procuro criar um clima de mistério e criar um enredo atemporal. Nesse livro específico, tomei o cuidado de não colocar elementos que pudessem datar a história. Já faz um tempinho que escrevi o livro – tinha 19 anos –, foi escrito antes de eu entrar na universidade. Eu era jovem, mas para contar uma boa história você precisa apenas ser um bom mentiroso! Mansão Klaus nasceu como um conto, mas acabou tomando corpo e virando um livro. Os personagens foram aparecendo na minha cabeça e preenchendo os espaços da história. Não sei se hoje eu faria diferente. Talvez o fizesse mais enxuto.
LC: Ainda sobre o tema da urbanidade, em que medida a cidade de São Paulo é representativa na sua ficção?
ER: Adoro a cidade, é muito importante para mim. Quero mostrar os prédios tradicionais e valorizar as construções representativas de São Paulo. O centro antigo é muito misterioso, envolve muitas lendas e me inspira a imaginar histórias de terror e de suspense. Procuro saber detalhes sobre a arquitetura e tento resgatar esses valores nos textos. Em meu atual projeto, a graphic novel Aleksey – Castelos de areia, a cidade também estará presente. Ainda está em desenvolvimento, deve demorar mais um ano e meio para ficar pronta. Em uma passagem, por exemplo, o personagem principal abre a janela e dá de cara com o edifício Martinelli. Essas construções são muito importantes, me interessam muito. Acho que São Paulo tem carência de escritores que a homenageiem. Na verdade, gosto é de uma boa história. Não importa se é você que me conta, se está em um livro ou em uma novela de TV. Veja o exemplo de Silvio de Abreu, novelista que sempre situa suas histórias em São Paulo. Gosto de pensar que, dessa forma, o enredo fica mais verossímil porque o leitor reconhece o local da ação. Para mim, fica mais próximo da realidade. Não acho que isso seja bairrismo. O leitor de outras cidades também consegue relacionar-se com as histórias porque São Paulo está muito presente no cotidiano dos brasileiros.
LC: E você já tem projetos para seu próximo livro?
ER: Tenho idéia para um romance policial, com direito a serial killer e tudo o mais! Nunca escrevi um romance inteiro, embora Mansão Klaus já tenha sido classificado como um romance em três partes. Meu projeto atual é a graphic novel, que é um projeto que pode se desdobrar em muitos outros. Já pensei em quatro outros argumentos, e também em uma série inspirada nas lembranças do personagem principal.
LC: Sobre sua atuação como editor, você poderia nos falar um pouco sobre as antologias que você organizou? Quais os critérios para a seleção dos textos?
ER: Tudo começou na época da faculdade. Um professor leu um dos meus contos e queria publicá-lo. Então, dei a ele a idéia de organizarmos um concurso de contos em que os 20 melhores fossem publicados em uma antologia. Cada autor se responsabilizaria pela venda de 20 exemplares e assim os custos de edição seriam pagos. O professor topou a idéia e fizemos o primeiro livro. Depois, organizamos um volume de crônicas e outro de poemas. Há 4 anos, montamos a editora e meu professor virou meu sócio na Andross. Hoje, temos 22 títulos publicados e, até a próxima Bienal do Livro, teremos 40. Leio de 120 a 130 textos de autores novos para escolher 40 ou 50 para cada antologia. Sou muito centralizador! Costumo trabalhar de madrugada, eu mesmo sou um noctâmbulo! Acho que o retorno para os autores é muito bom. Rodrigo Capella, por exemplo, foi um autor que publicamos em antologias e que agora terá seu livro Transroca, o navio proibido adaptado para o cinema.
LC: Como a literatura apareceu na sua vida? Quais são suas referências literárias?
ER: Comecei a escrever bem antes dos 19 anos, mas joguei fora tudo o que escrevi naquela época! Nunca achava que estava bom. Mudei o final de Mansão Klaus umas quatro vezes, mas acabei publicando a primeira versão. Comecei no teatro, por incrível que pareça. Escrevia peças para a comunidade de Santa Luzia, sobre a vida da santa. Eu tinha 13 anos. Depois disso, as igrejas vizinhas encomendaram outras peças e assim foi. Acontece que eu percebi que para dar vida às minhas histórias eu precisava de 20, 30 pessoas na montagem da peça. Foi por isso que resolvi escrever contos, porque só dependia de mim. Comecei a escrever histórias bobinhas, mas foi assim que peguei gosto pela escrita. Lógico que todas essas histórias já foram jogadas fora! Sempre gostei do sobrenatural, de mistério. Boa parte do César, personagem de Mansão Klaus, tem a ver comigo. Eu li Agatha Christie, Stephen King, Robert Louis Stevenson. Fui apresentado a eles pela mão de uma tia. Depois, li A profecia e outros do gênero. Aí, parei de ler, e comecei a escrever, sempre com temas sobrenaturais e de terror.
LC: É sabido que a literatura policial é um dos gêneros mais vendidos em países como Estados Unidos e França. Na sua opinião, qual é o segredo da atração que os policiais exercem sobre os leitores?
ER: Uma pessoa vai ao Playcenter para despencar de um brinquedo a dezenas de metros de altura para quê? Para sentir medo! Na minha opinião, o leitor gosta de experimentar emoções diferentes. Hitchcock, em uma entrevista para François Truffaut, falou sobre a diferença entre suspense e surpresa. Manter o suspense é fundamental, embora o maior mérito da literatura policial seja deixar o leitor com frio na barriga. É o tal thriller dos americanos.
LC: Como você vê a literatura policial brasileira contemporânea?
ER: Vejo com bons olhos. Acho que produzimos cada vez mais literatura policial de qualidade, com Jô Soares e Tony Bellotto, por exemplo. O Brasil tem elementos – polícia decadente e corrupção flagrante – que propiciam a criação de boas histórias policiais. Tem muita gente boa por aí, criando estilo próprio e fazendo bonito. Lógico que a literatura americana influencia, mas podemos criar algo genuinamente brasileiro.
RÁPIDO NO GATILHO
LC: Um livro
ER: Os meninos do Brasil, de Ira Levin. Adoro histórias com nazistas, ainda mais essa, com Joseph Mengele no Brasil!
LC: Um autor
ER: Stephen King. Foi o autor que eu mais li.
LC: Um detetive
ER: Podem ser dois? Hercule Poirot (Agatha Christie) e Dupin (Edgar Alan Poe)
LC: Um crime
ER: Queima de livros (malditos nazistas!)
LC: Uma palavra
ER: Mistério! (e poderia ser outra?!)
Obras de Rossatto, Edson disponíveis na Livraria do Crime:
catálogo
veja todos
|