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ENTREVISTA EXCLUSIVA / LivrariadoCrime
Bia Nunes de Sousa / setembro de 2006/ São Paulo
Sandra Reimão é professora e escritora, estudiosa da literatura policial. Publicou O que é romance policial, pela editora Brasiliense na coleção Primeiros Passos, e Literatura Policial Brasileira, pela editora Jorge Zahar. Em seu agradabilíssimo apartamento em São Paulo, ela recebeu a LivrariadoCrime para um ótimo bate-papo sobre escritores, detetives e os motivos que nos fazem tão apaixonados pelo gênero.
LC: Você é formada em filosofia e fez mestrado em comunicação. Como apareceu a literatura policial nesse contexto?
SR: No final da década de 70 eu queria tentar entender o Rubem Fonseca. Ele já tinha escrito Lucia McCartney, Os prisioneiros, A coleira do cão e Feliz Ano Novo, que foi censurado em 1976. Ele já era um escritor muito importante e de grande vendagem, com promoção e lançamentos por parte das editoras, um tratamento dispensado apenas para autores estrangeiros. Então, na verdade, meu primeiro interesse foi esse. E para entender o autor, eu fui pesquisar o gênero a que ele se filiava. Achei que era importante, em um escritor onde o gênero é tão marcado, tentar entender a especificidade desse gênero. Acabei escrevendo dois artigos e passei a estudar a literatura policial. O que era para ser um estudo sobre Rubem Fonseca acabou sendo um estudo sobre literatura policial, e que se transformou em livro publicado pela Editora Brasiliense, em 1983, chamado O que é romance policial.
LC: E como foi o processo de pesquisa? Na época não havia muito material crítico sobre literatura policial.
SR: Eu comecei a pesquisa estudando os clássicos internacionais, os fundadores do gênero, Edgar Allan Poe, Conan Doyle, Agatha Christie e até Dashiel Hammett. Mas não foi muito fácil não, porque nesse período, grande parte do material era importado. Existiam as obras dos autores em português, mas as biografias e estudos críticos e teóricos eram importados. Apenas a Agatha Christie tinha uma autobiografia publicada no Brasil, muito divertida, por sinal. Ela sempre foi muito bem vendida, muito traduzida, e é um fenômeno até hoje. Sobre os demais autores, os livros tiveram que ser importados da França e dos Estados Unidos.
LC: Nos Estados Unidos, aliás, a literatura policial tem uma dimensão enorme, é muito popular. Comparando com o Brasil, ainda temos um longo caminho a percorrer.
SR: Sim. Existe um estudo do José Paulo Paes, da década de 80, chamado Por uma literatura de massa ou O mordomo é o culpado (N.E. O ensaio chama-se “Por uma literatura brasileira de entretenimento (ou O mordomo não é o único culpado)” , e está publicado no livro A Aventura Literária: ensaios sobre ficção e ficções, Companhia das Letras, 1990). No texto, ele diz que, no Brasil da época, como o mercado era restrito, ninguém ficava rico sendo escritor. Com isso, nem o autor nem o leitor viam o livro como um produto, o livro era visto como uma satisfação pessoal. Por conta disso, todo autor buscava escrever obras-primas, ninguém queria escrever literatura de gênero, ninguém queria escrever terror, policial, ficção cientifica... E José Paulo Paes diz que é da literatura trivial que nasce a grande literatura, que existe um diálogo entre as duas, não há separação. Acho bem interessante ele colocar esse ponto de vista, porque até o final da década de 80 os best-sellers no Brasil vinham da literatura de massa norte-americana, como Harold Robbins e Sidney Sheldon, enquanto aqui nós não tínhamos literatura de massa, o leitor médio brasileiro não tinha o autor médio brasileiro.
LC: Temos que considerar também o contexto histórico nas décadas de 70 e 80, a ditadura e a repressão. Quando cai o regime militar, e é possível novamente escrever livros sem censura, a produção literária ambiciona apenas grandes obras, refletindo certo preconceito com a literatura de gênero, que era considerada menor.
SR: Existia esse preconceito, sim, mas isso vem sendo quebrado pelas próprias editoras. Cada vez são publicados mais livros policiais, que ganham destaque dentro dos catálogos de editoras como a Companhia das Letras e Record.
LC: Em seu livro, O que é romance policial, você comenta que um dos fatores que mais atrai o leitor para a literatura policial é o desafio do mistério. O leitor deseja ser herói?
SR: Claro. Nesse sentido, o romance policial tem muito a ver com a psicanálise, é o desvendar de um enigma. O leitor concorre com o escritor, enquanto tenta descobrir o mistério. A literatura policial é um desvendar das motivações humanas, das paixões e dos envolvimentos.
LC: Essa relação com a psicanálise faz da literatura policial um tema inquietante, mostra o lado escuro das pessoas...
SR: Sim, a literatura policial acaba por retratar a pequenez humana. Os personagens são pessoas comuns, em quem aflora a mesquinhez por força de motivações básicas como paixão, poder e dinheiro. Eu adoro a Agatha Christie por isso. Ela consegue revelar a mesquinhez nas pessoas mais regradas, que tentam sufocar a parte mais animalesca de si. Aliás, ela é fabulosa quando escreve sobre crimes em lugares circunscritos, confinados, seja em cidadezinhas do interior da Inglaterra, seja em um trem, um navio ou um castelo.
LC: Agatha Christie tem uma galeria de personagens secundários memorável. Qual a importância desses personagens no romance policial?
SR: O personagem secundário mais importante no romance policial acaba sendo o narrador da história. Ele é quem estrutura o romance, dialogando com o detetive e o leitor ao mesmo tempo. O narrador é quem dita o ritmo e pode ser mais ou menos perspicaz que o leitor. Para a Agatha Christie, o personagem secundário também tem a função de quebrar preconceitos. Isso ocorre quando ela transforma o estereótipo de bom moço em assassino ou o estereótipo do mau-caráter em boa pessoa, criticando a sociedade inglesa.
LC: Outro elemento importante em literatura policial é o local do crime. Os crimes são diferentes se forem cometidos em São Paulo, Nova York ou no Caribe?
SR: Com certeza! Os crimes de Garcia-Roza são essencialmente cariocas, só são possíveis porque estão no Rio de Janeiro. Em Berenice Procura, por exemplo, o crime acontece na praia, o corpo é dissimulado na areia. Assim como o Bellotto, para retratar São Paulo. O submundo é diferente em cada lugar. A prostituição que o Bellotto retrata não tem nada a ver com a do Rio de Janeiro, é noturna, enfumaçada, fechada, quase fashion. Cada vez mais o lugar é importante na narrativa. Desde Dashiel Hammett não conseguimos mais isolar o crime da sociedade em que ele ocorre.
LC: Os valores culturais do autor influenciam na escolha do tema do romance policial?
SR: Eu tenho notado que têm surgido livros policiais que refletem a área profissional do autor, o que é muito interessante. Podemos citar Morte nos Búzios, de Reginaldo Prandi, Morte na USP, de Ada Pellegrini, e Uma Aula de Matar, da Ana Arruda Callado, estas últimas professoras universitárias que escrevem sobre mistérios que se passam em faculdades. Acho que a literatura sempre fala do mundo e o autor sempre fala de suas experiências. Isso é verdade sempre, por mais abstrata que seja a história. Por outro lado, alguns autores têm uma capacidade incrível de captar e reproduzir a linguagem e a maneira de pensar do outro, daquele que eles buscam retratar. Joaquim Nogueira e Rubem Fonseca são mestres nisso. Feliz Ano Novo é um clássico, mostra muito bem como um excluído pensa tudo aquilo que vê, sem que isso reflita a personalidade do autor.
LC: Quanto às mulheres na literatura policial, temos muitas autoras, mas poucas detetives, não é?
SR: É, temos alguns personagens em livros para adolescentes, mas poucos para adultos. Quem sabe a Berenice do Garcia-Roza pode ser a primeira?
LC: Analisando os detetives, a maioria é excêntrica, tem manias e esquisitices. É mais uma chave para cativar o leitor?
SR: No romance de enigma, a solução se dá pelo uso do racional, não por via de ação, chantagem ou briga. O leitor compete com o detetive para desvendar o crime usando seu poder intelectual. Então, o que faz a diferença é o maneira de usar o método racional dedutivo, o modo como as idiossincrasias do detetive influenciam o método de raciocínio.
LC: Muitas vezes o autor apresenta elementos da vida pessoal do seu detetive aos poucos, diluindo essas informações em vários livros. Isso acontece para que o autor tenha a deixa para um novo livro, para retomar um assunto inacabado em uma nova história?
SR: Eu acho que isso acontece, sim, mas acho que a menção a livros anteriores tem também a função de gratificar o leitor. Quando o leitor reconhece a referência a uma aventura anterior do detetive, ele começa a construir sua trajetória individual dentro do livro. É como uma recompensa para aquele leitor fiel. Michel Certeau dizia que o leitor é um viajante em terras alheias. O leitor faz o seu caminho e um terreno que não é dele e usa as pistas que o autor dá.
LC: Todo detetive precisa de um criminoso...
SR: Claro, quanto mais pérfido, melhor!
LC: ...e como são esses criminosos? Por exemplo, Tom Ripley, de Patrícia Highsmith, é um criminoso fora dos padrões, mas o leitor torce por ele.
SR: Claro, Ripley é esperto demais, é sofisticado, ele aproveita das brechas de um mundo excessivamente instituído, a gente pode torcer por ele tranqüilamente. Assim como torcemos pelos detetives noir quando eles estão errados também. Lembra um pouco a idéia do faroeste: agir contra a lei se justifica pelo fato de o mundo pedir que eles sejam assim, que eles combatam a corrupção policial, por exemplo. A literatura policial também traz momentos em que podemos torcer pelo Mal.
LC: O criminoso sente culpa ou remorso pelo crime que cometeu?
SR: Em Conan Doyle e em Agatha Christie, o romance termina com a grande cena do desvendar do mistério protagonizada pelo detetive, revelando a identidade do assassino. O que acontece a partir daí não importa, não sabemos. Uma das justificativas possíveis é que a literatura policial tem um caráter apaziguador: o que importa é que a paz voltou e que a justiça foi feita.
LC: E a questão da violência? A literatura americana, por exemplo, costuma ser mais violenta que as demais.
SR: Isso acontece, mas o leitor de literatura policial não é o leitor de literatura sangrenta, de violência. A literatura policial pode até ter alguma violência, mas não é feita para provocar esse frisson. Ela é feita para provocar a emoção dedutiva, e não enfatizar a dor física. O desvendar do mistério é superior à violência.
RÁPIDA NO GATILHO
LC: Um suspense
SR: Cai o pano, de Agatha Christie
LC: Um susto
SR: Berenice procura, de Luiz Alfredo Garcia-Roza
LC: Um crime
SR: Assassinato no Orient Express, de Agatha Christie
LC: Uma arma
SR: A grande arte, de Rubem Fonseca
LC: Um romance
SR: Procurado, de Luiz Alfredo Garcia-Roza
LC: Um detetive
SR: Miss Marple
LC: Um autor
SR: Agatha Christie
LC: Um livro
SR: Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino
LC: Uma palavra
SR: leitura
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